- Escola Projeto 21
- 31/08/2026
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A literatura como ferramenta antirracista
A literatura como ferramenta antirracista
Ruy Castro afirma que “o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo parto. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo”. O posicionamento do jornalista não poderia estar mais certo. Nós somos seres de linguagem e é por meio dela que temos acesso ao mundo, mas normalmente esse acesso é ao nosso próprio mundo. E é, então, por meio dela e mais especificamente da literatura que podemos e devemos furar nossa bolha e nos depararmos com outras realidades.

Escritora Conceição Evaristo – Foto: Reprodução/Fernando Frazão/Agência Brasil
A leitura de Ponciá Vicêncio
A leitura de Ponciá Vicêncio, romance escrito pela ilustre Conceição Evaristo, convida-nos a mergulhar em uma experiência que, embora singular, representa a vivência do povo preto. Uma história marcada pelos reflexos que o processo de escravização dos povos africanos deixou nos seus descendentes. Para além dos efeitos de natureza material, ou melhor, da ausência de bens e posses, que a História nos aponta, Conceição Evaristo nos mostra a repercussão psicológica que o racismo pode causar de forma coletiva. O livro em questão também aborda temas como exploração do trabalho, violência doméstica e desigualdade social, por meio de uma linguagem extremamente poética e envolvente.
Se não agora, quando? Se não na escola, onde?
Ao sermos confrontados com assuntos tão violentos, não é absurdo que pensemos se essa leitura é apropriada para determinada faixa etária, para a sala de aula, para aqueles que não vivem essa realidade. E eu contraponho, perguntando: se não agora, quando? Se não na escola, onde?
O Brasil é um país que ainda, infelizmente, nega parte de sua própria história e desconhece o seu passado. Isso porque, o que nos contaram foi a partir de uma perspectiva eurocêntrica, branca e majoritariamente masculina. Narrativas que discutem os impactos da escravidão, que continuam reverberando até os dias de hoje, ajudam-nos a construir a ideia de um “futuro ser ancestral”, como defendido pelos escritores Daniel Munduruku e Ailton Krenak. Assim é importante que nós façamos esse movimento de olhar para o nosso passado para entendê-lo e não repeti-lo.

A leitura compartilhada como metodologia de análise e reflexão
Contudo, apesar da ideia do nosso “segundo parto”, esse por meio da leitura e da literatura, parecer encantadora, o processo nem sempre é fácil. A leitura compartilhada se apresenta como uma excelente metodologia de análise e reflexão da obra para além do enredo. Durante a leitura, questões como o papel da branquitude, a naturalização da escravidão e a responsabilidade desses atos são trazidas à tona, não com o objetivo de culpabilizar nenhum estudante, mas sim de que é necessário reconhecer o lugar de privilégio e estar disposto a abrir mão dele. Afinal, em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista, como bem pontuado pela filósofa Angela Davis.

Para (re)descobrir o Brasil
E para quem deseja (re)descobrir o Brasil, aqui estão algumas indicações de obras para seguir com a meninada!
- Um defeito de cor Ana Maria Gonçalves;
- Projeto Querino: Um olhar afrocentrado sobre a história do Brasil – Tiago Rogero (livro e podcast);
- Torto Arado – Itamar Vieira;
- Ideias para adiar o fim do mundo – Ailton Krenak;
- Olhos d’água – Conceição Evaristo;
- Quarto de despejo – Carolina Maria de Jesus;
- O avesso da pele – Jeferson Tenório;
- O sol na cabeça – Geovani Martins.
Por Tainá Rainele – Professora de Língua Portuguesa do 8º e 9º anos