- Escola Projeto 21
- 26/03/2026
- 0 Comentário
Silêncio é ter voz: como aprender a escutar o outro?
Na virada do século, em 1999, Rubem Alves escreveu uma crônica que se tornou muito famosa; começa assim:
“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil…”
Vale a pena continuar a leitura, chama-se A escutatória. Aqui, no entanto, trouxemos só este trecho para ilustrar um fenômeno que duas décadas depois Alves parece ter antevisto: a atual dificuldade em escutar o outro num contexto de avalanche de informações e crescimento da cultura da indiferença e hiperindividualização.
Mas, como o curso de escutatória não saiu do papel, nos deparamos com a seguinte dúvida: como aprender a escutar o outro?

O psicanalista e professor da USP, Christian Dunker, em vídeo para a Casa do Saber, acredita que a escuta é tão importante que deveria ser matéria escolar – não como componente curricular constituído, e sim pela experiência educacional: uma vez que a escuta crítica seja de fato relevante e valorada, é verdade que vire saber escolar.
Saber e cultura escolar. Por exemplo, na dinâmica diária as professoras e professores da Projeto 21 privilegiam as correções coletivas, para que os alunos percebam, ao escutarem os colegas, semelhanças e diferenças com as suas respostas e aí também se escutem. Ou seja, para nós o silêncio no momento da correção não é um calar-se autoritário, e sim (buscamos que seja) um silêncio reflexivo que leve o estudante a pensar se a sua fala vai ser agregadora, significativa no contexto. Isto é, não é falar somente para ser validado pela voz do outro. E isso só é possível porque aqui na nossa escola, desde cedo, acreditamos em formações para o debate; cremos que a adversidade é sim produtiva, na medida em que propõe a escuta. E escutar, nesse viés, compreende também em dizer.
Dunker vai ainda mais longe ao trazer o termo escuta colonizadora. Consideramos um conceito tão interessante que resolvemos compartilhá-lo; foi dito mais ou menos assim: quando eu escuto o outro a partir do meu lugar de fala, meus interesses, valores e posição; respondo também a partir de mim. Ou seja, por mais generosa que seja essa escuta, ela é colonizadora, pois nesse diálogo estabelece-se um que sabe, diz e tem autoridade sobre a continuidade daquele processo e o outro que demanda. Mesmo que haja comunicação e troca efetivas, no final se estabelece uma relação de poder vertical – ouvi, mas não escutei.

Que outro modo, portanto, devemos buscar – enquanto partícipes dessa sociedade que se ensurdece e enquanto professores e alunos? Abrindo-nos ao outro! Ao escutar “saindo de si” é possível colocar-se no lugar do outro, falar pelo outro e – importantíssimo! – estar disponível para aquilo que não se sabe, não compreende e não conseguimos antecipar.
É assim, nessa troca de linguagem, com falas e silêncios ativos, que podemos estabelecer um sentido que não está todo posto e feito. Que possamos, então, participar dessa experiência maior, e aberta, de diálogo!
Matéria originalmente publicado no Nanico – 21/08/2020
