Contribuições da neurociência para o aprendizado da criança
  • Escola Projeto 21
  • 02/03/2026
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Contribuições da neurociência para o aprendizado da criança

Muitas vezes sentimos quão importante é compartilhar com as famílias informações sobre o funcionamento do processo vivido pelas crianças e dicas de como auxiliar seus filhos na instigante e relevante tarefa que é o aprendizado.

Nesse campo a Neurociência vem se destacando fortemente hoje em dia porque se ocupa de entender a aprendizagem por meio de experimentos comportamentais e do uso de aparelhos como os de ressonância magnética e de tomografia, que permitem observar as alterações no cérebro durante o seu funcionamento. 

Sabe-se, por exemplo, com base em evidências neurocientíficas, que há uma correlação entre um ambiente rico e o aumento das sinapses (conexões entre as células cerebrais). Mas quem define o que é um meio estimulante para cada tipo de aprendizado? Quais devem ser as intervenções para intensificar o efeito do meio? Como a criança irá reagir? Nessa busca está  Hamilton Haddad, do Departamento de Fisiologia do Instituto de Biociências da USP, mas que também coloca os limites afirmando que “a Neurociência não fornece estratégias de ensino. Isso é trabalho da Pedagogia, por meio das didáticas”. Entretanto, ele reforça o quanto essas pesquisas apresentam outros tantos aspectos de suporte à ação de pais e educadores para seu relacionamento com a criança.

O destaque fica então para o papel de vários outros elementos que pertencem a esse mesmo campo: a emoção, que interfere no processo de retenção de informação, a motivação necessária para aprender, a atenção, sem a qual a aprendizagem não se concretiza, a modificação do cérebro em contato com o meio durante toda a vida, a formação da memória e sua efetividade quando a nova informação é associada a um conhecimento anterior. São esses aspectos que pretendemos abordar.

A EMOÇÃO

Segundo a Neurociência, para compreender o funcionamento cognitivo (razão ou inteligência), é preciso entender o aspecto emocional. Os dois processos são uma unidade: o afeto interfere na cognição, e vice-versa. A própria motivação para aprender está associada a uma base afetiva. 

Estudos comprovam que no cérebro existe um sistema dedicado à motivação e à recompensa. Quando o sujeito é afetado positivamente por algo, a região responsável pelos centros de prazer produz uma substância chamada dopamina e, gerando bem-estar, mobiliza a atenção da pessoa e reforça o comportamento dela em relação ao objeto que a afetou.

Como resultado decisivo temos um dado de realidade: a emoção é a cola cognitiva! Ou seja, qualquer conhecimento que as crianças e jovens adquiram estará ligado a uma conexão neurológica que se apoia na emoção. 

A MOTIVAÇÃO

Por outro lado, a cognição tem origem na motivação, mas – atenção! – ela não brota espontaneamente, como se existissem algumas crianças “com vontade” e naturalmente motivadas e outras “sem vontade”. Esse impulso para agir em direção a algo é culturalmente modulado pela sociedade e, principalmente, pela família, pelos seus ideais, pelos gostos com que vai alimentando a vontade da criança. É assim que o sujeito aprende a direcioná-lo para aquilo que quer, como o estudar, buscar o conhecimento, por exemplo.

É nesse sentido também que entra a escola, propondo atividades que os alunos tenham condições de realizar e os façam avançar, levá-los a enfrentar desafios, a fazer perguntas, procurar respostas, e ter prazer com isso.

Ficamos felizes em saber que a principal tendência em educação – e não só no contexto brasileiro – é o ensino da resolução de problemas com base na criatividade. Afinal, essa é uma premissa bastante antiga da nossa escola antes mesmo de os estudos da Neurociência se aproximarem da educação. Nesse sentido, é gratificante saber que num futuro próximo as habilidades socioemocionais e criativas serão mais valorizadas que a assimilação de conteúdos. Para reforçar essa ideia, Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação de Políticas Educacionais da FGV, afirma que embora uma boa infraestrutura seja desejável, o que realmente faz a diferença em uma educação de qualidade “é criança e jovem aprendendo o que é relevante para ser cidadão e para o trabalho na vida adulta”. 

ATENÇÃO

Pesquisas comportamentais e neurofisiológicas mostram que o sistema nervoso central só processa aquilo a que está atento. Assim, comprovaram que, se o desvio de atenção é significativo, a aquisição de habilidade e a memorização sofrem prejuízo.

Sendo ela fundamental para a percepção e para a aprendizagem, a atenção trabalha o tempo todo, passando de automática para dirigida, orientada de forma intencional e estreitamente relacionada com o pensamento. Atenção e memória se desenvolvem de modo interdependente, num processo de progressivo aprendizado.

A MEMÓRIA

“Uma criança pequena constrói memórias por imagens, associando uma à outra. No decorrer do desenvolvimento, ela passa a fazer essa relação conceitualmente, pela influência e pelo domínio da linguagem – o componente cultural mais importante. Com isso, passa de uma memória mais apoiada nos sentidos para outra mais escorada na linguagem. Portanto, a memória relacionada às aprendizagens escolares é uma função psicológica que vai se definindo durante o desenvolvimento.”

Essa explicação sobre a memória a partir dos trabalhos do psicólogo russo Lev Vygotsky, falecido em 1934, foi dada por Claudia Lopes da Silva, psicóloga escolar da Secretaria de Educação de São Paulo e estudiosa sobre esse pesquisador.

Sua colocação demonstra que essas investigações vindas de muito tempo atrás não perderam a validade e apontavam já o que se sabe hoje sobre memória. Ganha, no entanto, mais matizes com os novos estudos da Neurociência explicitando os processos desenvolvidos através da memória de curto prazo ou operacional e memória de longo prazo. Ambas essenciais para a aprendizagem, tanto a escolar, quanto a que sustenta a prática da vida. 

Os pesquisadores da Neurociência são unânimes em afirmar que é inegável que nossas experiências – favoráveis ou não – deixam marcas profundas em nosso Sistema Nervoso Central. Portanto, cabe sim à educação pensar que marcas as vivências na escola deixam nos estudantes. Quais experiências significativas serão armazenadas após determinado conteúdo? 

PLASTICIDADE CEREBRAL

O cérebro se modifica em contato com o meio durante toda a vida. A interferência do ambiente no sistema nervoso causa mudanças anatômicas e funcionais no cérebro. Assim, a quantidade de neurônios e as conexões entre eles (sinapses) mudam dependendo das experiências pelas quais se passa.

Nesse sentido, Lino de Macedo, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), defende que a influência do meio, já foi demonstrada por Piaget ao explicar como se constrói um conceito novo:

“Para o estímulo provocar certa resposta, é necessário que o indivíduo e seu organismo sejam capazes de fornecê-la. Por isso, não basta ter um meio provocativo se a pessoa não participar dele ou se ela for incapaz de se sensibilizar com os estímulos oferecidos e reagir a eles. A aprendizagem, portanto, não é a mesma para todos, e também difere de acordo com os níveis de desenvolvimento de cada um, pois há domínios exigidos para que seja possível construir determinados conhecimentos.”

Deixamos aqui algumas pinceladas sobre o aprendizado que acontece se as experiências tiverem sentido. Isto é, com a participação das competências socioemocionais, que modificam nossa estrutura cerebral, de modo particular a cada um, e que devem ser levadas em consideração para uma educação que olhe integralmente para os alunos  e para os filhos – por parte da escola e também por parte da família – privilegiando seu protagonismo e criatividade. 

Assim, se acreditamos num futuro mais respeitoso com o ambiente, mais acolhedor, crítico e democrático, tanto a escola quanto a família devem trabalhar com as novas ferramentas considerando as emoções durante o processo criativo: persistência, curiosidade, empenho, esforço, resiliência, alegria, frustrações… Esse aprendizado é o que torna o aluno mais forte diante dos desafios que enfrentará, não só na vida escolar como adulta. Portanto, que possamos juntos, escola e família, trazer essa responsabilidade e comprometimento para oportunizar experiências diferentes e transformadoras que façam a diferença a longo prazo.

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