Fome de saber: sabor e carinho para cada um
  • Escola Projeto 21
  • 24/04/2026
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Fome de saber: sabor e carinho para cada um

Omelete de amoras

[…] Era uma vez um rei que chamava de seu todo poder e todos os tesouros da Terra, mas, apesar disso, não se sentia feliz e se tornava mais melancólico de ano a ano. 

Então, um dia, mandou chamar seu cozinheiro particular e lhe disse: 

– Por muito tempo tens trabalhado para mim com fidelidade e me tens servido à mesa os pratos mais esplêndidos, e tenho por ti afeição. Porém, desejo agora uma última prova de teu talento. Deves me fazer uma omelete de amoras tal qual saboreei há cinquenta anos, em minha mais tenra infância. Naquela época meu pai travava guerra contra seu perverso vizinho a oriente. Este acabou vencendo e tivemos de fugir. E fugimos, pois, noite e dia, meu pai e eu, até chegarmos a uma floresta escura. Nela vagamos e estávamos quase a morrer de fome e fadiga, quando, por fim, topamos com uma choupana. Aí morava uma vovozinha, que amigavelmente nos convidou a descansar, tendo ela própria, porém, ido se ocupar do fogão, e não muito tempo depois estava à nossa frente a omelete de amoras. Mal tinha levado à boca o primeiro bocado, senti-me maravilhosamente consolado, e uma nova esperança entrou em meu coração. Naqueles dias eu era muito criança e por muito tempo não tornei a pensar no benefício daquela comida deliciosa. 

Quando mais tarde mandei procurá-la por todo o reino, não se achou nem a velha nem qualquer outra pessoa que soubesse preparar a omelete de amoras. 

– Se cumprires agora este meu último desejo, farei de ti meu genro e herdeiro de meu reino. Mas, se não me contentares, então deverás morrer. 

Então o cozinheiro disse: 

– Majestade, podeis chamar logo o carrasco. Pois, na verdade, conheço o segredo da omelete de amoras e todos os ingredientes, desde o trivial agrião até o nobre tomilho. Sem dúvida, conheço o verso que se deve recitar ao bater dos ovos e sei que o batedor feito de madeira de buxo deve ser sempre girado para a direita de modo que não nos tire, por fim, a recompensa de todo o esforço. Contudo, ó rei, terei de morrer. Pois, apesar disso, minha omelete não vos agradará ao paladar. Pois como haveria eu de temperá-la com tudo aquilo que, naquela época, nela desfrutastes: o perigo da batalha e a vigilância do perseguido, o calor do fogo e a doçura do descanso, o presente exótico e o futuro obscuro. – Assim falou o cozinheiro. 

O rei, porém, calou um momento e não muito tempo depois deve tê-lo destituído de seu serviço, rico e carregado de presentes. 

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Obras escolhidas II. 5ª edição. São Paulo: Editora Brasiliense.1995. p.219-220

Bastante conhecida, essa ideia aqui reproduzida em que se aproximam os dois termos, SABOR e SABER, o que vai além de uma troca das vogais apenas. 

Como assim? 

Na história é impressionante o conhecimento, o saber do cozinheiro real acerca da receita da omelete de amoras. Até os versos a serem recitados durante o preparo e o material do batedor de ovos, a direção a girar os ovos… Uau! E mesmo assim ele se nega a fazê-la, pois o que o rei estava buscando era o sabor da sua memória ao comê-la há cinquenta anos. E esse não poderia ser reproduzido… Afinal, a experiência subjetiva não pode ser reproduzida, o sabor do saber é único e é o que buscamos na escola – entre os professores, professores e alunos e entre os próprios alunos. 

É uma ousadia, de fato, prometer isso. Mas almejar como um ideal de educação, ficar com água na boca pode, não é mesmo? E para que de alguma maneira essa “omelete” se concretize, no início de cada ano, tal qual quando se pensa num jantar para compor as delícias que queremos oferecer aos convivas, tudo é planejado com carinho para que possamos receber professores, alunos e pais da melhor maneira possível. 

Durante as férias – e mesmo desde o ano anterior  –  mexe daqui, mexe dali e a escola se transforma num espaço de culinária, num cardápio afetuoso. E como nos mostra a parábola de Benjamin, fome é afeto. Mas, como também nos revela a história, numa boa cozinha os ingredientes são essenciais, certo? Por esse motivo, é com alegria que queremos contar que o novo Projeto de Língua Inglesa, que amplia o número de aulas de inglês, está bem azeitadinho, para a meninada provar um tempero de além fronteiras, contando já com uma seleção de materiais que alimentarão os projetos de cada série dos Anos Iniciais com substanciais referências para o novo formato de trabalho. 

Além disso, a quadra ganhou cores novas para ampliar os jogos e brincadeiras, explorando também suas paredes,  e o espaço da Reserva já está aguardando as atividades que acontecerão lá, já neste início de ano. 

Também queremos compartilhar que nem só com “tijolo por tijolo” se mata a fome: durante a nossa Semana Pedagógica, que antecede a volta às aulas, a direção e coordenações pensaram numa formação que pudesse auxiliar suas equipes e contribuir significativamente para as reflexões e possibilidades de ampliar a alegria e fome dos alunos. Melhor, isso sempre acontece entre comidas de verdade: nos fartamos em lanches gostosos, com música, dança, reencontros, bolos, cafés… Porque pensar é uma atividade e tanto, gasta energia e faz os estômagos roncarem! 

Nesse sentido, aqui na Projeto 21 acreditamos que os melhores sabores são os nascidos do desejo de saber. Ainda que nem sempre se consiga saciá-los inteiramente, temos certeza que dando o nosso melhor, chega-se sim a uma solução possível.

Portanto, a escola fica preparada para que ao iniciar de cada ano, com todos às mesas, possamos levar na memória as omeletes de amora que construiremos juntos!

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